por Luiz Otávio Oliani*

28 de Junho de 2026: Sexta-feira

“A modernidade me derrotou, constato, / antes de escrever versos como se eles fossem armas brancas / e disparar no irrisório revide.”
Matheus Peleteiro, p. 14

O título do novo livro de poemas de Matheus Peleteiro é “O fim da conversa”, Salvador: P55 Edição, 2026.
Na orelha, a poeta Júlia Iracy explica que: “O fim da conversa percorre um tempo quase estéril, praticando uma poesia que se propõe a ser escuta e não resposta.”
O volume tem cinco partes, a saber: “Meu irrisório revide”, “Pintando a minha aldeia”, “Palavra em minha boca”, “Timeline” e “O fim da conversa”, justamente com o propósito do fechamento da obra.
Não à toa, “Proêmio”, p. 13, abre o livro e traz uma conversa com um desabafo do eu lírico que ouviu tantas vozes na rua; mas, à noite, engasgado com um poema, indaga: “Agora, estou desesperado, / quem restou para escutá-lo?”.
O mal-estar da solidão aflige o eu lírico que se vê numa encruzilhada. Alguns versos refletem isso em “Alguma poesia”, p. 15:
“(…) estamos juntos e sozinhos. Cansados, carentes e desnorteados”
“Todas as conversas agora são monólogos”
“Tenho observado a minha tia a pedir likes no Instagram”
“O amor e a paixão se confundem ao avistar qualquer mera companhia”
“Se o poeta é aquele que fala sozinho, / será que o futuro nos reserva alguma poesia?”
Do poema “Pop Corn Bath”, p. 16, saíram tais versos que somam à condição incômoda de viver em um mundo desregulado:
“Tentei carregar o mundo nas costas e / me vi como Sísifo, preso num ciclo / de habituais quedas rotineiras”
“Eu queria ser do tamanho de mim, / caber em minhas fantasias e / poder contemplar as utopias / que carrego e dou de comer, / mas não sou”
Por fim, enérgica, a voz do poeta diz: “Insisto em converter o idealismo tolo / num lirismo delirante cruel como a poesia / — e, por isso, delicioso de sonhar.”
Já o poema “Nem sequer uma linha”, p. 18, confirma a tese para a qual os poetas modernos se empenharam, só trazerem a abordagem de qualquer tema e de qualquer palavra na poesia. Assim, desde a esquizofrenia, o suicídio e a morte de pessoas queridas aparecem no poema de Peleteiro.
Na terceira estrofe, encerra magistralmente: “Todas as grandes tragédias / podem ser convertidas em / belas estrofes de poemas (…)”.
O desrespeito pela terceira idade gritante no Brasil surge em um texto comovente que trata da invisibilidade do idoso. Merece destaque “Espanto”, p. 19:
“Completamente embasbacada, / uma senhora revela o motivo do seu espanto / a um garoto que lhe oferece ajuda / para atravessar a rua: // ‘Você / consegue / me ver’.”
No poema “Enterre a poesia brasileira”, p. 21, há referências intertextuais. Drummond aparece com “O caminho tropeça na pedra”, no qual existe uma inversão de valores.
Já Ferreira Gullar desponta em: “A arte existe porque a vida não basta” foi reescrita em “Por culpa da arte, a vida já não basta.”
Cecília Meireles surge na indagação: “— Em que passado ficou perdido / o meu presente?”
Na segunda parte do livro, “Pintando minha aldeia”, os poemas trazem flashes de reflexão existencial, a começar pelo texto que dá título à seção, p. 25-26, e valoriza o quinhão pessoal, o espaço em que vive o eu lírico. Logo, “Voltei para a minha terra expatriado, / a abracei como se abraçasse o mundo / e fiz dos meus amigos a minha aldeia”.
Valorizar as oportunidades é uma dificuldade do eu lírico em “Sem fazer alarde”, p. 32, ao declarar: “(…) tenho a impressão de que / deveria saber desperdiçar / melhor o meu tempo”.
Por outro lado, “Florescendo”, p. 33, retrata o universo da maturidade declarando que “(…) precisava / me posicionar / para existir”. Assim, o eu lírico descobriu a ausência da política do enfrentamento que é fundamental nas relações humanas, pois “os cactos não dão opinião / e por isso florescem.”
E, “se a vida não dá contentos ao homem, o poeta inventa”, página 34 (“Percebendo Deus”), pois “no poema, nada real, / mas tudo é verdadeiro.”
Mais uma vez, a intertextualidade desponta, seja em “Don Quixote”, p. 46 (com “moinhos de invento”, “fiel escudeiro” e “Sancho Pança”), para homenagear Miguel de Cervantes; seja em “Poema em linha torta”, p. 37, que é uma paráfrase de “Poema em linha reta”, de Fernando Pessoa.
A terceira parte do livro é “Palavras na minha boca”.
Na página 46, há um poema que dá título à seção e no qual “(…) sempre sei o que digo, mas / nunca o que escolherão escutar, / se quiseres colocar / palavras em minha boca, / por favor, ao menos / as traga com os lábios.” Trata-se do famoso bordão “Quem conta um ponto, aumenta um ponto.”
O primeiro poema, “Perspectivas”, p. 43, trata de memória e do isolamento, ou seja, a profunda solidão do homem, mesmo em contato com outras pessoas.
E, se a vida necessita de certo “Grão de loucura”, p. 45, por “não cabermos nos moldes das convenções”, “os que o possuem / incendeiam o mundo.”
Há intensa carga imagética por meio de figuras de linguagem. Em “Pequenos descuidos”, p. 49, lê-se que: “o amor, embora pareça indestrutível, falece nos pequenos discursos.”
Um oxímoro interessante surge em “Caso fores partir”, p. 49: “(…) / aponte para mim o lugar / aonde eu possa guardar / o futuro que não viveremos.”
Aos poucos, os poemas mudam a tônica e adquirem um viés lírico-amoroso. É o que se nota da leitura de “Multiversos”, “Uma prova de amor”, “Amamo-nos”, “Olhar apaixonado”, dedicado à musa Amanda Quaresma, “O assalto”, “O amor do mundo inteiro”, com interessante jogo anafórico do verso “Nos roubamos o amor do mundo inteiro”, seguido das justificativas do eu lírico, e “Contrafluxo”, das páginas 47 a 54.
A quarta seção é “Timeline” e o poema-título, p. 57, ora na abertura, é um convite a refletir sobre a vida real x virtual, o registrar bons momentos nas redes, sem divulgá-los, mas esquecendo depois de ocorridos e lembrar o ruim para sempre.
Em “Feed”, p. 60, um intenso trabalho com o campo semântico inerente ao texto valoriza o universo virtual. São citados os vocábulos: “desbloqueio”, “foto”, “usuário”, “bloqueio” e o verso “Arrasto o dedo para o lado” no registro de “vidas genéricas”, isso sem aludir à prosopopeia: “o tempo escorre / como se nunca tivesse sido meu.”
No mundo louco cada vez mais desesperado em “Desobrigado”, p. 63, os versos “Quem me obrigou / a estar disponível” refletem o descontrole mental dos indivíduos e a pressa das respostas imediatas. Ou seja, vive-se hoje um fluxo exagerado de mensagens a serem respondidas em tempo real. Mas a poesia de Matheus Peleteiro propõe a reflexão: isto é necessário?
E é em “Greve de silêncio”, poema da página subsequente, que o eu lírico confessa: “não respondo a ninguém.”
A parte final é mesmo “O fim da conversa”, na qual o eu lírico se liberta e faz profundas reflexões sobre a descoberta da cura do câncer, a escassez dos recursos naturais, o ressuscitar dos dinossauros, em “Enquanto te escuto falar”, p. 72; a reflexão espiritual tem “Depois da missa” e “Deserção”, p. 76-77; a igualdade de sofrimentos de pessoas tão diferentes como o homem traído, o morador de rua que dormiu faminto, o playboy, a adolescente grávida, o bilionário que jantou sozinho, a mulher bloqueada por um ficante numa rede social, entre tantos outros, próximos com as mesmas dores em “Parâmetros&rdq uo;, p. 79.
Conclui, tristemente, em “Baleias”, p. 73, que baleias-azuis têm deixado de cantar, devido às ondas de calor, o que as desgasta, levando-as a gastar mais tempo em busca de alimento e menos comunicação. Reflete o eu lírico sobre quem seria o responsável por tal processo e finaliza: “Elas desistem da conversa / por necessidade; nós, / por ignorância.”
Ao final do volume, dois poemas sobre a morte em “O som do tempo passando” e “O fim”, p. 82-83, nos quais o eu lírico não se revela assustado diante da morte, mas sim temeroso de que não consiga construir o que deseja, sem ao menos dizer eu te amo a quem merece ouvir.
O último, o poema “O início”, p. 86, quando o eu lírico deseja de fato que possamos ouvir os outros, sem ter pressa de responder, para que a escuta seja realmente válida.

Válida, como é hoje a poesia de Matheus Peleteiro, extremamente antenada no tempo em que vive o poeta.


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*LUIZ OTÁVIO OLIANI é professor e escritor. Atual Diretor de Comunicação Social da APPERJ. Recebeu mais de 100 prêmios literários. Possui textos traduzidos para inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, holandês, romeno e chinês. Publicou 26 livros, incluindo poesia, conto, crônica, teatro, literatura infantojuvenil, crítica literária e ensaios.    @luizotaviooliani

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